segunda-feira, 25 de junho de 2012

Silêncio



  Ele corria além do limite de velocidade. O sol brilhava ao fim da estrada e o relógio marcava 14h05min. Em seu emaranhado de pensamentos, não sabia o que acontecia a sua volta. Muito menos que na próxima curva, um caminhão estaria parado jogado ao chão, que ele tentaria frear e que seu carro seria lançado num precipício. Que quebraria uma perna no primeiro impacto, cortaria parte do braço no segundo, e no ultimo o vidro perfuraria seu coração e ele morreria como um ninguém, esquecido. Viu outra placa que o mandava reduzir a velocidade, ignorou. Os olhos estavam marejados. Seu corpo tremia e sua pele era puro gelo. Pensava nela, somente nela. Em como ela ficava mal humorada quando estava de TPM, nas noites frias em que ela puxava toda a coberta para si enquanto dormia. De seu vicio em álcool. Das noites em que a levou pra casa totalmente embriagada. Pensava em todos os momentos ao lado da mulher que amava. Corria pra não aceitar o fato de que ela, já não mais existia. A dor em seu peito era insuportável, desejava a morte a ser condenado a viver sem ela. As lágrimas tomavam seu rosto. Sofia. Era tudo que ele pensava. Era tudo que ele precisava. Mas ela estava morta e sem ela o mundo era só um imenso vazio. Ele sabia que se a situação fosse inversa ela não teria fugido, teria ficado, teria ido ao seu enterro e talvez até seguido em frente, entrado na faculdade e conhecido algum cara legal. Construído uma família. Pra ele, estas não eram uma opção, nunca pretendeu entrar em faculdade ou criar uma família que não fosse com ela. Sofia. Morta. Sem ter se quer escutado de seus lábios que ele a amava mais que tudo. Que ele sentia sua morte a todo décimo de segundo. Mais lágrimas, Victor entrou no túnel, o rádio chiava e seus dedos começavam a formigar, não sabia há quanto tempo estava dirigindo, mas sabia que devia estar longe o suficiente da imagem de uma Sofia morta. Imaginou mentalmente que por um instante ela estivesse ali. Tudo ficou em silêncio, Victor suspirou e disse: “Eu te amo”. Abriu os olhos, o pânico o tomou, freou o carro. Seu carro foi em direção ao nada. Então ele fechou os olhos e repetiu. “Sofia, eu te amo.” O relógio marcava 15h32min. Silêncio.


Porque morrer, é quase tão humano quanto amar.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Devaneios


    Os ponteiros do relógio marcavam meia noite. Gélida noite de insônia. Em meio ao nada, procurava tudo: explicações ou qualquer razão para acreditar que, porventura, estivesse perdida naquela fumaça onde flutuavam tantas memórias. Ouvia apenas os barulhos de seu próprio silêncio. Tentava sustentar-se sobre pilares que desmoronavam, com toda a esperança, a sinceridade, a ingenuidade e as expectativas; com todas as suas verdades refutadas. Tudo isso pouco a pouco se perdia naquela fumaça; pérfida fumaça que a asfixiava, que a cegava, que se misturava ao sangue pulsando sobre a ferida aberta. O silêncio gritava, o silêncio a ensurdecia. Sabia exatamente onde estava, mas sentia-se perdida. Precisava reencontrar-se. Em qual daqueles amargos devaneios perdera-se a si mesma? Todos os dias procurava por respostas. Talvez as respostas estivessem na brisa, no pôr do sol, nos versos de alguma música, nos livros jogados pela estante ou até no sorvete guardado na geladeira. Essa fora sua maior tolice: não perceber que talvez só precisasse se acalmar e olhar em volta; não perceber que as respostas poderiam estar nos mais ínfimos detalhes, que sua ansiedade por encontrá-las não a deixara enxergar.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Eternizando momentos

Uma luz violeta entrava pela janela que estava meio entreaberta e passava pelas cortinas, já amarelas pelo tempo. Os lençóis alaranjados ficavam mais intensos com os pequenos raios do sol. Ele já havia acordado. Rolei pela cama procurando seu corpo em minha cama e não obtive a resposta que esperava. Continuei ali, olhando fixamente o teto branco. Ouvi uns ruídos vindos de algum outro cômodo. Esperava que fosse ele, mas havia também a possibilidade de ser a senhora que cuida da limpeza do apartamento, ou então minha companheira de quarto. Tentei levantar-me lentamente, porém, isso ocorreu da forma mais desastrosa possível. Pensei que fosse cair, e isso teria, de fato, realmente acontecido se seus braços não tivessem chego a tempo para me agarrar.  Rindo, me disse: Eu não posso sair um segundo sequer e você parece deixar de estar em segurança. Eu não havia percebido, mas quando me segurou, com apenas uma mão, tinha em outra mão uma bandeja com o nosso café da manhã e com uma florzinha qualquer, aquelas que se pega de jardim do vizinho escondido, já murcha. Dei um sorriso todo bobo e me joguei em seus braços. Depois de um longo abraço, ele sentou ao meu lado e colocou suas mãos sobre as minhas. Sua outra mão se encaixou em meu queixo e com os lábios próximos aos meus, sussurrou: "Bom dia, amorzinho" e deu um breve sorriso. Queria que esse momento durasse para sempre. Como ele consegue me fazer sentir assim? Eu preciso dele, não só agora, nem daqui um mês ou três anos. Eu, nesse instante, tive a certeza que era e seria ele. Eu estava tão distraída pensando em tudo isso que não percebi quando ele preparou uma torrada com manteiga e colocou bruscamente em minha boca, me sujando, propositalmente. Rimos por alguns minutos, enquanto ele colocava a florzinha já em estado de degradação avançada entre meus cabelos e beijava minha testa. Fechei os olhos, pensando que estava sonhando e pedi a Deus que fizesse desse momento a minha realidade.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Embriaguez


Depois de uma noite num bar, era hora de voltar para casa. Naquele momento, já havia esquecido de todos os seus problemas. Andava pela rua deserta, escura. Os postes pouco faziam, iluminando pequenos pedaços da calçada logo abaixo deles. A noite fria e solitária lhe fazia companhia, seguindo seus passos vacilantes.  No caminho, algumas prostitutas procurando diversão barata e sem compromisso. Estava cansado de caminhar, havia trabalhado muito o dia inteiro e bebido mais do que o normal para uma quarta-feira. Tomou então um beco para cortar caminho. Em pouco tempo já havia sumido no breu misterioso.  E aos poucos foi se sentido vigiado, como se as paredes tivesses olhos e os lixeiros tivessem boca. Sussurravam coisas sem nexo, confundindo ainda mais sua mente alcoolizada. Sem perceber, seus passos foram ficando menos firmes. Menores. Era difícil distinguir qualquer coisa naquela escuridão. Procurou uma parede para se apoiar e seguir em frente, mas estas também haviam sumido com a falta de luz. Em pouco tempo fora tomado por uma sensação estranha, um sufoco. Então caiu.
Sabia que estava no chão porque suas mãos apalpavam o mesmo lugar que seus pés pisavam. Não havia dor. Havia medo. Logo ele, acostumado aos caprichos da noite sombria. Começou a sentir a garganta seca, os olhos afogados. Chorou.  Houve um barulho. Um estalo. E então, um golpe lhe atingiu as costas. Pensou que não teria mais chance de viver. Não importava o que fosse, ele não tinha mais forças nem coragem de revidar. Alguns segundos se passaram até conseguir retomar sua consciência e, no entanto, viu quase que toda sua vida passar. Não como um filme, mas como um álbum de fotos, daqueles velhos e já sem emoção.
Escuridão. Por mais que ele tentasse abrir os olhos, eles simplesmente não o obedeciam. E então, como que num trailer, viu tudo aquilo que lhe amedrontava. Seus temores e fraquezas, ali expostos e encarando-o. Não sabe ao certo quanto tempo ficou desmaiado, nem o que se passou no mundo naqueles momentos em que esteve distante, mas ainda era noite. Levantou - ainda zonzo, trôpego, desorientado – e seguiu em frente. Ao chegar ao final do beco, percebeu que o sol nascia em alguma direção, deixando o mundo mais claro. Nessa hora, sentiu como se uma parte dele tivesse desprendido do seu corpo enquanto esteve dentro do beco. Sentiu-se leve. Renovado. Decidiu que era hora de mudar de vida. E seguiu na direção oposta a sua casa. Já não era o mesmo para chamar aquilo de lar.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Apenas Lembranças


Um, dois, três goles de Whisky - que você esqueceu de levar quando partiu. Quase três horas da madrugada. Uma lembrança. Lembro-me de você empacotando suas coisas, guardando aquelas suas camisas que antes me serviam de pijama. E junto vão as calças, os casacos, os sapatos. As noites que dormiu comigo. Os dias que amanheceu ao meu lado. Quarto gole. Vejo-o atravessando a porta do quarto com as malas na mão. Vejo-o encarando-me com um olhar vazio, implorando por perdão. Tento, em vão, imaginar quais motivos lhe levaram a me trair tão descaradamente. Sinto vontade de perguntar mil coisas, mas não consigo. Mais um gole. Você se movimenta em direção às escadas. Degrau por degrau. Sem pressa, vai descendo. Sirvo-me mais um copo. Você para ao lado do sofá e olha fixamente para o retrato que está sobre a mesa. Somos nós. Você o vira para baixo, como se quisesse apagar a imagem de sua memória. Ainda estou parada na beira da escada, somente a te observar. Mais alguns goles descem queimando pela minha garganta. Seus dedos tocam a maçaneta. Posso ouvir meu coração gritar. Você não ouve? Ele parece gritar tão alto que imagino que você esteja escutando. Mas nenhuma palavra sai da minha boca. Termino outro copo ao te ver saindo por aquela porta e deixando-a aberta, como se esperasse que eu fosse atrás de você implorando para voltar. Mais um copo. Você para. Dirijo-me até a porta e desvio meu olhar para cima e vejo a chuva vindo ao nosso encontro. Mais alguns goles e noto que a garrafa está quase ao fim. Você olha para trás. Último gole. Meu corpo está frágil, sem força alguma. Minha garganta dói. Dói como o meu coração doeu ao te ver partir... Sem nunca mais voltar.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Almas perdidas

O dia amanheceu com uma névoa calada e falante, como se quisesse urgentemente me dizer algo e ao mesmo tempo, só quisesse meu silêncio. Não precisava ser vidente, nem sábio para saber que seria um dia ruim. Parei de fazer adivinhações que com certeza iriam falhar, e comecei a sentir. Aos poucos, fui percebendo como tudo fica mais bonito e mais sincero quando visto com o coração. Comecei a notar sentimentos verdadeiros perdidos em meio a solidão. Em meio a tantas almas perdidas e desertas.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Indecisão

Ela estava na janela. As pernas nuas e finas com cicatrizes no topo, balançando incessavelmente enquanto o vento frio esfaqueava seu rosto e jogava seus cabelos no rosto. Profunda respiração.
Naquele momento de indecisão se deveria ou não por fim em seus sofrimentos, lembrou-se novamente de sua rápida ligação para os pais, antes daquilo. Os pais com quem ela não falava há mais de três anos, devido a rejeição deles. Ser a única filha não fez com que ela fosse amada. Os pais não a entendiam e ela também não buscava entendê-los.  Eles não a reconheciam. Aliás, nem mesmo ela se reconhecia.
Inclinou-se contra a mesa, buscando o maço de cigarro. Um centelha de sentimento, raiva, escorreu quando percebeu que o último tinha se esvaido não muito tempo atrás. Talvez tivesse algo na geladeira, mas ela não queria se dar o trabalho de descer dali. Qualquer esforço não valia a pena.
Olhou pra baixo, respirou fundo. Os carros passavam com músicas altas, músicas que ela não gostava, enquanto o vento jogava novamente seu cabelo em seu rosto. Outro suspiro.
Naquele momento ela se via arrependida de ser quem era. Quem mandou ser intensa, complicada, extremista demais? O que não a agradava, azia-a querer morrer. Morrer. Ela não queria morrer, mas também não queria continuar vivendo aquela vida monótona. Pensou em pessoas que talvez sentissem a falta dela, caso ela pulasse dali. Não conseguiu pensar em ninguém. Suspiro. Entorpecida, horas ali, até que o sol começou a brotar com suas luzes laranjas no céu e ela ainda não havia se decidido. "Solte de uma vez", dizia sua mente.