quarta-feira, 27 de julho de 2011

Embriaguez


Depois de uma noite num bar, era hora de voltar para casa. Naquele momento, já havia esquecido de todos os seus problemas. Andava pela rua deserta, escura. Os postes pouco faziam, iluminando pequenos pedaços da calçada logo abaixo deles. A noite fria e solitária lhe fazia companhia, seguindo seus passos vacilantes.  No caminho, algumas prostitutas procurando diversão barata e sem compromisso. Estava cansado de caminhar, havia trabalhado muito o dia inteiro e bebido mais do que o normal para uma quarta-feira. Tomou então um beco para cortar caminho. Em pouco tempo já havia sumido no breu misterioso.  E aos poucos foi se sentido vigiado, como se as paredes tivesses olhos e os lixeiros tivessem boca. Sussurravam coisas sem nexo, confundindo ainda mais sua mente alcoolizada. Sem perceber, seus passos foram ficando menos firmes. Menores. Era difícil distinguir qualquer coisa naquela escuridão. Procurou uma parede para se apoiar e seguir em frente, mas estas também haviam sumido com a falta de luz. Em pouco tempo fora tomado por uma sensação estranha, um sufoco. Então caiu.
Sabia que estava no chão porque suas mãos apalpavam o mesmo lugar que seus pés pisavam. Não havia dor. Havia medo. Logo ele, acostumado aos caprichos da noite sombria. Começou a sentir a garganta seca, os olhos afogados. Chorou.  Houve um barulho. Um estalo. E então, um golpe lhe atingiu as costas. Pensou que não teria mais chance de viver. Não importava o que fosse, ele não tinha mais forças nem coragem de revidar. Alguns segundos se passaram até conseguir retomar sua consciência e, no entanto, viu quase que toda sua vida passar. Não como um filme, mas como um álbum de fotos, daqueles velhos e já sem emoção.
Escuridão. Por mais que ele tentasse abrir os olhos, eles simplesmente não o obedeciam. E então, como que num trailer, viu tudo aquilo que lhe amedrontava. Seus temores e fraquezas, ali expostos e encarando-o. Não sabe ao certo quanto tempo ficou desmaiado, nem o que se passou no mundo naqueles momentos em que esteve distante, mas ainda era noite. Levantou - ainda zonzo, trôpego, desorientado – e seguiu em frente. Ao chegar ao final do beco, percebeu que o sol nascia em alguma direção, deixando o mundo mais claro. Nessa hora, sentiu como se uma parte dele tivesse desprendido do seu corpo enquanto esteve dentro do beco. Sentiu-se leve. Renovado. Decidiu que era hora de mudar de vida. E seguiu na direção oposta a sua casa. Já não era o mesmo para chamar aquilo de lar.

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