quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Lágrimas Indolores

Antes de dormir, muito mais cedo do que agora durmo, pensarei nele, enquanto mexo em meus cabelos brancos. Estarei com o celular na cabeceira da cama, cheia de livros velhos e empoeirados, esperando uma mensagem ou uma ligação. Sentada na cama, estarei escrevendo um e-mail de bom dia para o único homem que amei em toda a minha vida. Imaginarei seu sorriso - o mesmo que conheci um dia - ao ler na manhã seguinte minhas singelas palavras. Continuaremos trocando juras de amor? Continuaremos culpando a vida e o destino pelos nossos desencontros? Talvez nunca seja a hora certa para nós dois. Em uma outra vida, talvez. E então, não faremos mais planos absurdamente perfeitos, pois não teremos força nem tempo suficientes para concretizá-los. Mas mesmo assim, eu serei feliz por saber que ele ainda existe - meio torto, meio perdido, meio triste e meio só - em alguma parte do mundo. E existirão muitas manhãs, muitos invernos e muitas sextas-feiras em que me lembrarei dele. E eu continuarei a acreditar nas tantas palavras que me foram ditas nos fins de tardes que passamos juntos, vendo o sol se pôr. Amar aquele homem foi o sentimento mais verdadeiro e efusivo que experimentei. E em meus últimos dias, segurarei com minhas mãos brancas e enrugadas a folha de papel com o e-mail mais importante que ele me escreveu. Que eu lia cinco, dez, vinte vezes ao dia para ter forças, quando a minha vida estava em ruínas. Suas palavras salvaram a minha vida. Ele salvou a minha vida. E ao lembrar de tudo o que aconteceu, meus olhos derramarão lágrimas indolores. De uma saudade curada pela falta de remédio e de um amor conformadamente eternizado no invisível do universo. Mas em alguma manhã, ele não mais encontrará meu e-mail de bom dia. Ou eu não receberei a resposta do último que enviei. Então, de nossa história de amor, restará apenas o livro que ele me pediu tanto para escrever. E que eu levei quase uma vida inteira para compor, com medo de chegar às suas últimas páginas.

3 comentários:

  1. "Amar aquele homem foi o sentimento mais verdadeiro e efusivo que experimentei." Maravilhoso! O jeito como usa as palavras e as expressa é perfeito, e consegue transmitir muita sinceridade no que escreve. Parabéns mesmo! Já te seguia no twitter, e adorei saber que também tem um blog. Escreves super bem. Beijos http://memorias-escritas.blogspot.com/

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